Uma pedra com escrita desconhecida de acadêmicos, de 3.000 anos atrás,
foi encontrada no Estado mexicano de Veracruz. Arqueólogos dizem que é
um exemplo da mais antiga escrita descoberta no Hemisfério Ocidental.
Os descobridores mexicanos
e seus colegas americanos divulgaram na quinta-feira (14/9) que a ordem
e o padrão dos símbolos esculpidos parecem ser de um verdadeiro sistema
de escrita, com características impressionantemente similares a imagens
da civilização olmec, considerada a primeira das Américas.
É raro encontrar um sistema de escrita ainda não conhecido. Um dos
principais a virem à tona, dizem os acadêmicos, foi o do Vale do Indo,
reconhecido em escavações de 1924.
Agora, os acadêmicos estão admirados com o código diferente de qualquer
outro e que não conseguem ler. Eles estão excitados com a perspectiva de
encontrar mais amostras dessa escrita e eventualmente decifrá-la, e
assim abrir uma janela para uma das civilizações antigas mais
enigmáticas.
As estimativas são que a pedra mexicana, que contém 52 sinais distintos,
alguns deles repetidos, era de ao menos 900 a.C. Isso é pelo menos 400
anos antes do que se sabia existir escrita na Mesoamérica e, por
extensão, em qualquer parte do hemisfério. A Mesoamérica envolve desde o
México até grande parte da América Central.
Previamente, nenhuma escrita tinha sido associada não ambiguamente com a
cultura olmec, que floresceu junto do Golfo do México em Veracruz e
Tabasco muito antes dos povos zapotec e maia tornarem-se proeminentes na
região. Até hoje, os olmec eram conhecidos principalmente pelas cabeças
colossais de pedra que esculpiam e expunham em prédios monumentais em
suas cidades de governo.
A pedra inscrita foi descoberta por Maria del Carmen Rodriguez, do
Instituto Nacional de Antropologia e História do México, e Ponciano
Ortiz, da Universidade Veracruz. Os arqueólogos, casados, são os
principais autores do artigo da descoberta, que está sendo publicado na
sexta-feira pela revista Science.
Os sinais na pedra de 12 kg "documentam um sistema de escrita que não se
suspeitava e revelam uma nova complexidade dessa civilização", disseram
os pesquisadores no artigo.
Observando que o texto "obedece a todas as expectativas de escrita", os
pesquisadores escreveram que as seqüências de sinais refletiam "padrões
de linguagem, com a probabilidade de sintaxe e de ordens de palavras
dependentes da língua".
Várias seqüências de sinais aos pares geraram até especulações que o
texto possa conter dísticos poéticos.
Especialistas que examinaram os símbolos olmec disseram que precisariam
de muitos outros exemplos antes de poder ler o que está escrito na
rocha. Eles disseram que os símbolos não pareciam relacionados às
escritas mesoamericanas posteriores, sugerindo que essa escrita olmec
pode ter sido praticada por apenas algumas gerações e nunca ter se
espalhado para culturas em sua volta.
Stephen D. Houston, co-autor do artigo da Universidade Brown e
autoridade em escritas antigas, admite que a singularidade aparente da
escrita causa estranheza e provavelmente seria enfatizada por alguns
acadêmicos que questionam a influência do povo olmec no curso das
culturas mesoamericanas posteriores.
Mas Houston disse que a descoberta "pode ser o início de uma nova era de
estudos sobre a civilização olmec".
A pesquisa também contou com a participação de Michael D. Coe, de Yale;
Richard A. Diehl, da Universidade do Alabama; Karl A. Taube, da
Universidade da Califórnia, Riverside; e Alfredo Delgado Calderon, do
Instituto Nacional de Antropologia e História.
Pesquisadores da Mesoamérica não envolvidos na descoberta concordaram
que os sinais pareciam representar uma verdadeira escrita e que poderiam
inspirar exploração mais intensiva do passado olmec. A civilização
emergiu cerca de 1200 a.C. e virtualmente desapareceu em torno de 400
a.C.
Em um artigo na mesma revista, uma citação de Mary Pohl, antropóloga da
Universidade Estadual da Flórida que escavou ruínas olmec, diz: "Esta é
uma descoberta excitante de grande importância."
Alguns pesquisadores questionaram a datação da inscrição, porque a rocha
foi descoberta em uma escavação de cascalho onde estava misturada com
outros artefatos e possivelmente fora de seu contexto original.
A equipe que fez a descoberta disse que cacos de cerâmica, figurinos de
argila e outros artefatos quebrados que estavam junto da pedra pareciam
ser de uma fase da cultura olmec que terminou perto de 900 a.C.. Eles
admitiram, porém, que a desorganização do sítio tornava impossível
determinar se a pedra estava em um lugar relacionado à elite governante
ou a uma cerimônia religiosa.
Diehl, especialista na cultura olmec, disse: "Meus colegas e eu estamos
absolutamente convencidos de que a pedra é autêntica."
Construtores de estrada encontraram a pedra em um aterro antigo em
Cascajal, no coração do território olmec. A aldeia fica em uma pequena
ilha no sul de Veracruz e a cerca de 1,6 km das ruínas de San Lorenzo,
onde era a cidade dominante olmec entre 1200 e 900 a.C..
A descoberto ocorreu em 1999. Rodriguez e Ortiz foram chamados e
rapidamente reconheceram a importância potencial da descoberta.
Somente depois de anos de escavações, nas quais eles esperavam encontrar
mais amostras de escrita e análises comparativas com iconografia olmec,
os dois arqueólogos convidaram outros acadêmicos mesoamericanos a se
unirem ao estudo.
Depois de alguns artigos nos últimos anos sugerindo casos de "escrita"
olmec que não se sustentaram, a equipe concluiu neste ano que a pedra
Cascajal, como está sendo chamada, era a verdadeira.
Os sinais minúsculos e delicados estão gravados em um bloco de pedra
macia de 35 cm de cumprimento por 20 cm de largura e 12 cm de espessura.
A inscrição fica na superfície superior côncava da pedra.
Houston, líder no esforço para decifrar a escrita maia, examinou a pedra
buscando chaves para uma verdadeira escrita, não apenas iconografia não
relacionada à linguagem. Ele disse em uma entrevista que detectou
padrões regulares e ordem, sugerindo "um texto segmentado no que parecem
frases, com claros inícios e fins".
Alguns sinais pictográficos foram freqüentemente repetidos, disse
Houston, particularmente os que pareciam como um inseto ou um lagarto.
Ele suspeita que sejam sinais alertando o leitor para o uso de palavras
que soam iguais, mas têm significados diferentes -como "I" e "eye" em
inglês.
Ao todo, concluiu Houston, "a seqüência linear, a regularidade dos
sinais, os padrões de ordem muito claros, indicam que isso é escrita,
mas não sabemos o que diz".
Tradução: Deborah Weinberg
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