Stephen R. Covey

Autor de vários best sellers, entre eles "Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes"


Bate-papo com Stephen Covey

Revista Você S/A.

Em visita recente ao Brasil, o guru americano falou a um grupo de executivos sobre os princípios que defende em seus livros. Antes de retornar aos Estados Unidos, Covey conversou com a VOCÊ S/A.

José Eduardo Costa

Stephen Covey é um especialista em gestão do desempenho humano e liderança. Autor de vários livros sobre esses temas, seu título mais famoso é Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes.

Escrito em 1989, Os sete hábitos se tornou um best seller, vendendo mais de 13 milhões de exemplares . Atualmente preside a Franklin Covey Company, empresa com sede em Utah, nos Estados Unidos, e que tem como missão difundir os princípios ensinados em seus livros.

Recentemente, Covey voltou ao Brasil para falar a um grupo de executivos sobre produtividade, gerenciamento de equipes e como equilibrar vida pessoal e profissional num momento em que a palavra de ordem dentro das empresas é eficiência. “O desafio hoje é tratar os profissionais como trabalhadores do conhecimento e não como servidores braçais, tal como na Idade Média”. Nessa entrevista que deu a VOCÊ S/A antes de retornar aos Estados Unidos, Covey trata desses e de outros assuntos. Confira.

VOCÊ S/A - Recentemente um relatório divulgado pela OIT mostrou que o brasileiro trabalha bem mais de oito horas por dia. Isso não é um paradoxo? Melhoramos em eficiência e ao invés de passar mais tempo em casa, estudando ou em atividades prazerosas, estamos trabalhando mais.

COVEY - Bem, o volume de horas trabalhadas é uma função que envolve muitas variáveis. Quando mexemos em uma delas todas as outras são afetadas.

VOCÊ S/A - Seu modelo diz que o sucesso para equilibrar vida pessoal e profissional é alinhar os aspectos emocional, espiritual, racional e sentimental da vida. Como se faz isso?

COVEY - Isso é uma questão para a qual cada pessoa tem de achar a própria resposta. Não há um modelo que sirva para todo mundo. Achar o equilíbrio pessoal não é uma atribuição da empresa. Nos Estados Unidos, um pai de família passa, em média, 20 horas por semana em frente da televisão e uma hora com a criança. Eu não sei se há um dado para o Brasil. Mas o fato é que isso é uma questão de escolha. Cada pessoa faz a sua. Dois terços de todas as doenças são causadas por opções de estilo de vida. Muitas pessoas desperdiçam muito tempo de sua força de trabalho fazendo coisas que não são importantes. E, o mais grave, a maioria das pessoas não decidiu o que deve ser prioritário em suas vidas.

VOCÊ S/A - E de que forma resolver isso?

COVEY - Você deve ter em mente qual é sua missão, quais os valores pelos quais você quer lutar. Você tem que ter isso claro, a ponto de poder viver com base neles. Quando você tem seus objetivos bem definidos você é capaz de decidir as coisas com a consciência tranqüila.

VOCÊ S/A - Não há um modelo que sirva para todos?

COVEY - É responsabilidade de cada individuo determinar quais são suas prioridades. Na hora que você estabelece quais são os seus goals você passa a abrir mão de outras coisas que podem até ser prazerosas, mas não são importantes para a sua vida e nem para os que vivem ao seu redor.

VOCÊ S/A - E de que forma atingir esse balanço?

COVEY - A idéia é buscar o equilíbrio entre os quatro elementos básicos da vida, que são: aprender, viver, amar e deixar um legado. Significa que você pode basear suas opções de vida segundo esses quatro valores.

VOCÊ S/A - Por que isso parece tão difícil?

COVEY - Não é. O difícil é você saber quais são seus valores, qual a sua missão de vida, qual é o seu objetivo. A ausência desses valores causa angustia. E aí a pessoa começa a culpar a companhia, os superiores e as circunstâncias. Tudo por causa da sua vida que está desequilibrada. E aí passa a agir como uma vítima. Deixa de ser pró-ativo e se torna um frustrado. Não são raras as pessoas que acabam descontando essa frustração nos que estão ao redor. Seja na mulher, nos companheiros de trabalho ou nos amigos. Na verdade, muitas vezes a raiva nada mais é do que uma forma de exteriorizar o sentimento de culpa.

VOCÊ S/A - Você fala em suas palestras de amor nas relações de trabalho. Mas esse sentimento parece tão distante do mundo corporativo. As empresas estão preocupadas com balanços, folha de pagamento, custos. Não acha?

COVEY - As vezes a palavra usada não é amor, mas respeito, gentileza, realização profissional, orgulho, credibilidade e confiança. Quando o trabalho é prazeroso de forma a possibilitar o uso da inteligência e competência, o dinheiro se torna uma coisa secundária. Na verdade, as pesquisas apontam que o dinheiro é o quarto item na lista de prioridades nas melhores empresas para trabalhar. A recompensa financeira fica atrás da credibilidade, que significa que as pessoas têm confiança na integridade do trabalho que realizam. Orgulho, as pessoas têm prazer em realizar aquela tarefa. E, por último, relações profissionais satisfatórias. Só depois vem a recompensa financeira. Se você não tem os três itens anteriores você passa a sentir a necessidade de ser recompensado financeiramente. Aí nós caímos no modelo do bastão e da cenoura. Você acaba tendo de recompensar as pessoas financeiramente, pois abdicou de outras dimensões: respeito, confiança, gentileza. Isso é o que eu quero dizer quando falo de um sistema mais igualitário.

VOCÊ S/A - O que é isso?

COVEY - Significa que se você abrir mão do amor, leia-se respeito, confiança, gentileza, vai ter que proporcionar um ganho financeiro. O que muitas vezes não basta para ter um funcionário motivado, satisfeito e rendendo tanto quanto deveria.

VOCÊ S/A - Você dirige uma companhia, a Franklin Covey (com sede em Utah, nos Estados Unidos). O que realmente faz essa organização?

COVEY - Basicamente o que faço é difundir os ideais da Vida centrada em princípios e da Liderança centrada em princípios para o mundo inteiro. Atuamos em mais de 153 países hoje em dia. O livro "Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes" já foi traduzido para mais de 38 línguas. A idéia é plantar sementes ao redor do mundo.

VOCÊ S/A - Por que esse livro fez um sucesso tão grande?

COVEY - A razão para dizer que o livro vale a pena é que ele trata de temas universais: desequilíbrio na vida, relações inter-pessoais vazias, cultura de baixa confiança.

VOCÊ S/A - São questões velhas, não?

COVEY - Há também o fato de tratar sobre princípios. Eu não venho ao Brasil e tento ensinar práticas. Estas são específicas de cada cultura. Eu não sei como é sua vida, ou em que situação você se encontra, nem quais são suas condições de trabalho, nem da sua empresa.

VOCÊ S/A - Então qual o aprendizado?

COVEY - Você é quem deve decidir por quais valores quer viver. E você deve exercitar a disciplina para viver segundo esses princípios.

VOCÊ S/A - E como fazer isso?

COVEY - Começando pelas pequenas coisas. Cabe a você a decisão de desligar a TV e passar mais tempos com os filhos, de descobrir como lidar com sua empresa de forma a se sentir mais motivado, mais valorizado, a ter maior liberdade de expressão. Como você aumenta seu círculo de influência, é você quem decide. Mas primeiro você tem de enxergar isso.

VOCÊ S/A - Por que tantas pessoas estão insatisfeitas com relação ao trabalho?

COVEY - As pessoas reclamam porque as companhias hoje buscam cada vez melhores resultados com menores custos. Tudo isso tem a ver com a competição que existe hoje entre as empresas para sobreviver no mercado. Ao longo da história, sempre houve movimentos de mudança nas relações de trabalho. Isso "forçava" as pessoas a melhorar suas qualidades e competências para se adaptar ao novo modelo. Acontece que com a implementação de tecnologia em muitos processos, houve a redução drástica de postos de trabalho. As mudanças nos últimos tempos causaram um trauma social bastante grande.

VOCÊ S/A - Apesar de toda a tecnologia e desenvolvimento que tivemos trabalhamos tanto quanto nossos antepassados?

COVEY - Isso tem a ver com equilíbrio de vida. Quando você adota o modelo do trabalhador do conhecimento você aumenta sua qualidade de vida. Toda a idéia desse modelo é produzir mais de forma balanceada. Com isso você tem uma flexibilidade para gerenciar seu tempo. A idéia é ter autonomia para seguir critérios mais subjetivos ao invés de ficar preso a um conjunto de normas e regras de conduta. Assim as pessoas seriam capazes de viver mais felizes e de forma mais equilibrada.

VOCÊ S/A - Por que esse modelo parece tão distante do que vivemos hoje?

COVEY - As pessoas estão mais preocupadas com a possibilidade de perder o emprego. Por isso, mudar de comportamento parece tão difícil. No longo prazo, esse modelo (do trabalhador do conhecimento) beneficiaria a todos. Ganhariam as empresas, que continuariam a produzir e as pessoas, que teriam maior qualidade de vida. Economicamente, todos sairiam ganhando.

Fonte: Revista Você, Ed. 07/2002

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